30 April 2008

Peça com dono


Esta peça faz parte da série "Padres Jesuitas" ou também designada por "Corrupção e Perversão do Poder" (o cogumelo que se vê na parte lateral da peça é um cogumelo halucinogénio, deve ser consumido com moderação).

Dim: 50x25x20cm
Mat: Grés
Técnica: Construção com lastras.
Temp: 1200ºC
Ano: 2004

27 April 2008

O toque de Midas

Há duas ou três semanas andei a pesquisar blogs de cerâmica e respectivos links. Num deles encontrei uma fotografia de um micro-bule equilibrado na ponta de um dedo feito por um ceramista japonês. Realmente espectacular! Então lembrei-me de uma pequena caixa de cartão onde eu guardei um pequeno tesouro. Quando há oito anos decidi experimentar ver o que conseguia fazer a partir do mais pequeno "Belisco" de argila, fiz várias peças em terracota das quais nunca mais me lembrei até ver o bule.

Este foi o resultado que convosco partilho.

26 April 2008

Eu disse, não disse?!

20 horas depois

24 horas depois

Esta flor abre durante a noite e dura menos de 24 horas aberta, secando de imediato.
Eu tenho este cacto há mais de 30 anos. Floresce uma vez por ano.

25 April 2008

Belle du Jour

No meu terraço do Eden às vezes acontecem pequenos milagres como este em que hoje, da noite para o dia a flor de um cacto abriu. Amanhã começará a murchar. Uma beleza de vida curta.

Corola 12cm, pedúnculo 17cm. E o cacto nem se vê por trás da flor.

24 April 2008

Papá, o que é aquilo?

Ceramista atrevidote, decidi fazer algumas peças de simbologia fálica. Nunca vendi nenhuma e hoje não estão no Centro Cultural de Belém mas no terraço da minha casa.

Quando ainda tinha as peças no meu atelier um dia entrou um senhor com um puto de quatro a cinco anos e começaram a olhar à volta. Então o puto olhou para a peça aqui fotografada ao lado direito e perguntou - "Papá, o que é aquilo?" Eu olhei para o puto e para o papá. O papá olhou para o filho e para mim. Quer eu quer ele demorámos algum tempo a "inventar" uma resposta adequada à idade da criancinha, mas também não foi necessário porque o puto que tinha feito a pergunta foi mais rápido que eu ou o próprio pai, quando abriu a boca outra vez e disse - "Já sei, é um farol!"

19 April 2008

Emigrante

Este escaravelho partiu para França na bagagem de um casal de meia-idade.

13 April 2008

A bela e o grunho







A bela foi comprada no ebay e corresponde a um típo de bonecas em porcelana dos anos 20, chamadas "half-dolls", usadas para fazer pequenas almofadas para espetar alfinetes ou como neste caso uma pequena caixa de vidro para colocar "bugigangas".

O grunho (é um adjectivo que eu uso e significa bronco, estúpido, matarruano, burgesso ou como o meu pai usava para o mesmo efeito a expressão "muita pinheiro") é uma peça cerâmica feita de pasta refractária com chamota grossa. Vidrada quase totalmente com vidrado opaco e posterior vidragem parcial com outros vidrados.

É um exemplo típico do que eu tenho sempre em mente quando faço peças cerâmicas: forma, textura e cor em proporções q.b.

Dim: 14x10x10cm

12 April 2008

Chega de lamúrias. O que me interessa mesmo é a cerâmica.


Os mistérios do forno

Esta peça foi feita em grés branco e decorada com um vidrado comercial da Botz. Este vidrado foi usado várias vezes mas o resultado foi sempre diferente. O que é que se passa dentro dum forno a 1200ºC?
Estou convencido que alguns resultados obtidos são consequencia da influência dos vidrados das outras peças numa mesma fornada. Daí que o momento da abertura do forno é sempre um ponto de interrogação no trabalho de um ceramista.

PS. Esta peça não está à venda. Faz parte do espólio do autor. Representa uma figura muito simples do meu imaginário. Um sapo, criatura húmida, escorregadia e inchada, à procura de dar nas vistas ou de fêmea.

11 April 2008

Alice no País das Vacas Magras



O Sr. Engenheiro queria fazer-nos acreditar que o pior tinha passado, que já não estávamos no fundo do poço e que já se via a luz ao fundo do túnel. Mas a realidade era outra.

Em 2005, houve uma Bienal de vacas assim assim,
1º prémio: 20 mil Euros
2º prémio: 12,5 mil Euros
3º prémio: 7,5 mil Euros.

Em 2007, houve outra Bienal de vacas mais magras,
1º prémio: 15 mil Euros
2º prémio: 10 mil Euros
3º prémio: 5 mil Euros.

Mas afinal as vacas não estavam só mais magrinhas, já não tinham leite nem febra, eram só pele e osso.
O Sr. Engenheiro e seus acólitos sorriam, mostrando os dentes, mas a verdade escamoteada era negra e pérfida. Afinal estávamos num tempo nunca antes imaginável de vacas anoréxicas e moribundas.

Ricardo Casimiro
de tanto matutar inventei um provérbio:

"galinha magrinha nunca fez boa canjinha,
e a doentinha morreu da maleitinha."

08 April 2008

Direito à indignação

Esta foi a obra que ganhou o 1º prémio na VIII Bienal de Aveiro, autora, a ceramista Sérvia Jasmina Pejcic.

Este é o email que recebi hoje da Jasmina Pejcic, revelador da perplexidade da autora.

Hello Ricardo,

I would like to thank you very much for photos. Unfortunatelly I haven't received the prize money and I don't know what happened with this.

I hope that you know and that you can help me. Please let me know when can I expect the payment.

Best wishes

Jasmina

Traduzido em português:
Obrigado pelas fotos. Infelizmente ainda não recebi o dinheiro do prémio e não sei o que aconteceu com isto.
Espero que tu me possas ajudar. Por favor diz-me quando posso esperar o pagamento.
Sinceramente,
Jasmina

Foi desta maneira que a Camâra Municipal de Aveiro tratou os três autores premiados na Bienal e os 300 visitantes presentes naquele auditório no dia 8 de Dezembro de 2007 ficaram convencidos que os prémios tinham sido entregues.

06 April 2008

Como a Amália


"Com penas me deito e com penas me levanto", e nem sequer tenho galinhas.
Mas durmo com um édredon.

Feito o mimo à querida língua portuguesa agora a conversa sobre cerâmica.

Desde que comecei a fazer peças cerâmicas como quase toda a gente e em diversas áreas tive um periodo de "experimentação" em que fiz diferentes típos de peças do que actualmente faço. Mas desde o início uma coisa ficou clara, animais, animais, animais.


Bule Rato


Bule Fuínha

PS: Fiz vários bules que vendi (entenda-se peças em forma de bule). Estes dois, os meus preferidos nunca sairam do armário. Esta é a única apresentação pública.


03 April 2008

Somos

o país do carnaval da mealhada
o país dos estádios de futebol e da cultura da treta
o país dos doutores e engenheiros
o país do faz de conta
o país dos pequeninos
o país dos reformados a morrer à míngua
o país das anedotas
o país das tias em bicos de pés para aparecerem nas revistas
o país dos telemóvel-dependentes.

E eu sou. Ceramista, crítico, corrosivo, mordaz e sarcástico. Há três anos fiz uma obra composta por quatro peças a que chamei "Portugal no Reino dos Escaravelhos".
Todas as peças são compostas por 3 elementos, uma forma rectangular, simbolizando Portugal, uma bola de esterco e um escaravelho empurrando ou empoleirado nela. Chamei-lhes "o povo", "os políticos", "a burguesia", e por último "o clero". Todos empenhados em levar esta "merda" para a frente. Desculpem, queria dizer esterco mas fugiu-me a finesse para a verdade.
Destino da obra?
Doei-a a um museu que dignifica a cerâmica. Ao menos quando eu esticar o pernil haverá obra para os futuros escaravelhos contemplarem e não se sentirem como eu tantas vezes me sinto.
Este país não me merece.


01 April 2008

O barão da cadeirinha

A cadeirinha veio de uma feira de velharias, eu só a pintei.
O barão é uma peça com as pernas articuladas e preparada para suspensão.
Material: Grés
Dim: 19x09x07cm

Se fosse vivo teria agora 94 anos. Como muitos dessa geração patriarcal, quando chegava a casa, sentava-se na sua cadeira especial em frente à televisão e lá começava ele.
-"Oh Zé, baixa aí a persiana! Oh Zé, levanta aí o som à televisão! Oh Zé, pergunta aí à tua mãe o que o é o jantar! Oh Zé, vai-me buscar um copo de água."
O Zé era eu e o barão era o meu pai.